quarta-feira, 12 de outubro de 2011


"Tenho aprendido muito com o jardim.
Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas.
Pois não são.

Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar, enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. 
Depois de meses, um dia, pá! 
Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.

Mas leva tempo, ele também se produzindo.
Eu cuidava, cuidava, e nada.
Viajei por quase um mês no verão. 
Quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados.

Fiquei um a fera. 
Gritei com o pintor:
— Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?
O homem ficou me olhando, pálido. 
Não, ele não sabe, entendi.

E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.
Porque tem outra coisa: girassol, quando abre flor, geralmente despenca. 
O talo é frágil demais para a própria flor, compreende?
Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. 
Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto..."



« Caio Fernando Abreu »

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